quarta-feira, 7 de junho de 2017

Acolhe-me

         Acolhe-me na profundeza desses seus olhos azul-esverdeados. Diz que adorou me ver esta tarde. Arruma uma mala e umas mudas de roupa, que hoje você vem pra cá. A Marginal é bem longa, mas a vida não. Vamos tirar uma foto nova, porque na única que tenho eu estou descabelada. Vamos assistir ao Fantasma da Ópera mais uma vez, pedir comida chinesa e conversar até de madrugada.
          Acolhe-me nestes dias estranhos em que tudo parece findar. Pega minha mão e me deixa aqui sentada, esperando dar o horário de ir. Acolhe-me com o cheiro de tinta acrílica e o pãozinho com manteiga na frigideira. Deixa eu te contar o que nunca te contei antes, deixa eu te dizer o que eu ando pensando. Acolhe-me na profundeza desses seus olhos azul-esverdeados e me escuta dizendo que falhei.

quarta-feira, 26 de abril de 2017

Contagem

          O objetivo do texto que hoje sai nesta página é não ter objetivo algum. Deixo que o lápis guie a mão, e não o contrário. As palavras que emanam da ponta do grafite hoje são livres, são autônomas, estão soltas no mundo para ser quem quiserem - como eu. Como eu, estão na metade do caminho e precisam ser descobertas antes que fique escuro, antes que fique tarde, antes que fique mudo. O que mancha a página hoje não quer dizer nada enquanto tenta exprimir algo. Não quer só preencher mais um pedaço de papel com palavras apagadas com pouca precisão e um pequeno rasgo no canto superior direito. 5, 4, 3, 2, 1. Fui longe demais correndo das perspectivas e acabei num beco sem saída. Well, well, well. Voltemos ao início, então. Voltemos aos livros de História empoeirados e dispostos na mesma arte desde que chegaram à casa junto com os moradores. Falemos sobre livrarias reformadas que perdem o eixo e bagunçam nossos hábitos. Discutamos a respeito da mutabilidade do ar que preenche o espaço entre nossas cabeças. E não tentemos chegar à conclusão alguma. 1, 2, 3, 4, 5. Isso não quer dizer nada, é claro. Quer apenas correr com os lobos. As orações saem da ponta dos dedos e chocam-se com as pequenas partículas cor de marfim. E esse é um falso limite. Depois delas há ainda camadas e camadas de terra até o cerne ou camadas e camadas desse mesmo ar que não para de nos reorientar. 5, 4, 3, 2, 1. Transpareçamos nossa admiração aos fogos de artifício que sobem ao céu às seis horas da tarde. Gritemos em almofadas só porque nos foi dito que isso alivia a tensão. Ralhemos com todos em pensamento ao descobrir que não existe amparo. E não acreditemos em nenhum ponto final. 1, 2, 3, 4, 5. O que eu sei é que em algum lugar alguém agora caminha no corredor de uma loja sem saber que encontra-se diante do símbolo da experiência pré-ruína. Alguém agora pergunta-se como os prédios sobrevivem a isso toda vez. Alguém agora pergunta-se qual é o objetivo desses vocábulos todos juntos formando tamanho desarranjo. 5, 4, 3, 2, 1. Aceitemos: nenhum. 

terça-feira, 18 de abril de 2017

Memória recente?

          Vou lhe falar sobre corredores desertos. Sobre álcool. Sobre uma criança em choque. Hoje vou escrever sobre um futuro naufragado graças a um jantar fora de casa. 
          A parte de mim que é sensata quer se calar. A que é cansada quer desesperadamente telefonar para alguém e despejar mares de injustiças presentes no mundo. A que quer se calar quer também acreditar que é tudo passado, que isso já não causa mais sequer uma onda. A que segura o telefone a meio caminho da orelha está sentindo a água batendo no casco do barco.
          Isso não vai me deixar em paz.
          Isso não vai me deixar em paz.
          Não vai me deixar 
          em paz.
          Anos e séculos e milênios e eras de fios de cabelo caindo no chão desde que isso aconteceu pela primeira vez. E anos e séculos e milênios e eras desde que o futuro começou a desandar.
          Tinha uma criança sozinha no quarto naquele dia. Tinha um teor alcoólico no sangue dele naquele dia. Tinha um adeus à aurora naquele dia. Só não tinha voz alguma para impedir.
          Tinha uma menina sozinha na sala naquele outro dia. Tinha uma escada comprida afastando a sala do resto da casa naquele outro dia. Tinha uma família inteira no andar de baixo naquele outro dia. Só não tinha voz alguma para impedir.
          O silêncio. Os flashes. A incompreensão. A dúvida. A revolta. A injustiça. O grito. O choro. Não houve uma terceira vez. O que houve foi uma infinidade de invasões dos efeitos em outras situações em que eles não eram bem-vindos. Era pra ter sido de outro jeito. Não era pra ter sido assim.
          Que bom pra você que o seu cérebro te ajudou a esquecer. O meu só faz lembrar. O meu só sabe atrair o choque do que foram aqueles dias. Só sabe se frustrar diante da vista de terra firme ficando para trás toda vez que o barco volta para o mar turbulento que são essas memórias que, apesar de antigas, de tanto tornar a bater no casco ainda considero recentes.

sexta-feira, 31 de março de 2017

Fantasmas que se cruzam

            A cidade é um cemitério. 
          Não importa a direção para qual eu me volte, sempre encontro amigos que poderiam me cativar, cafeterias onde eu poderia ser cliente assídua, avenidas que poderiam me contar mais histórias e amores que poderiam ser os meus. 
          A cidade abriga milhares de situações de "poderiam ter sido". Os fantasmas dessas realidades contrastantes perambulam bem à nossa frente no metrô. Eles falam ao celular, leem um livro com a capa amassada e tentam se equilibrar no vagão, assim como nós. De vez em quando, trocamos olhares. Dentro de mim há sempre a pergunta: "será que?". Será que se nós começarmos a conversar agora, o rumo da minha vida será diferente? Será que todas as minhas histórias e todas as histórias dele/dela cairão como um peso ali naquele instante? Será que tudo o que vivi até agora me trouxe a este momento?
         A cidade é uma missa de sétimo dia. Todos procuram superar algo, em qualquer lugar. Todos choram a morte do momento que já findou, da oportunidade que já passou, do amor que já partiu. Todos que cruzam o nosso caminho estão usando preto e andando com pesar. Todos têm um motivo para não querer cruzar a soleira da porta de casa. 
          Mas cruzam.
          Mas ousam.
          Mas seguem.
          A cidade é um cemitério onde cada um é uma aparição para o outro.

sábado, 25 de março de 2017

Ratos e trilhos e trens e luzes e você

Hoje vi um ratinho no trilho do trem
Quando o trem se aproximou, ele correu e sumiu
Queria ser assim
Quando sentisse a pancada chegando, fugisse
Mas não sou
Sou o contrário
Quando sinto o trem chegando, eu corro e apareço
Bem no meio do trilho
Bem na frente das luzes
Bem na sua mira

domingo, 19 de março de 2017

Autossabotagem

            A minha consciência é vacilante.
          Às vezes, quando penso que ninguém está vendo, sou eu mesma e ajo de acordo com meu arbítrio. No resto do tempo, faço bobagens para me conformar. É nesses lapsos de dignidade que acabo trocando a felicidade simples ao lado de alguém por uma vida de intermináveis questionamentos a respeito da justiça do mundo. É nesses lapsos de decoro que sou novamente aquela criança de 9 anos guardando um segredo que, mais tarde, me destruiria. É nesses lapsos de amor-próprio que acabo trocando a opção de curso para agradar aos outros e colecionando algumas aprovações, mas, novamente, infeliz. Ou, ainda, é quando chega a terça-feira e digo que não tenho nada a dizer ao mundo, mas, na verdade, tenho. A minha consciência é vacilante, é hesitante, é resignada. Ao mesmo tempo em que aprende facilmente a sorrir de si mesma, demora a aprender a tomar decisões acertadas. Num instante está serena e, no outro, enlouquecida. E aqui estou eu, nesta solidão de uma criança que acaba de libertar um passarinho. Nesta solidão de quem espera um desenrolar diferente desta vez.
          A pessoa que se autossabota não vê a infelicidade hasteando a bandeira. Ela irrefletidamente acredita que está tomando a melhor decisão até que, uns minutos ou horas ou dias ou meses ou anos depois, percebe que naufragou.
         A pessoa que se autossabota não espera que vá mudar de ideia e acredita estar no meio de um ato de coragem. "Vou correr este risco." Ela se acovarda diante das próprias vontades e considera-se corajosa. A pessoa que se autossabota é contraditória, antitética.
      A autossabotagem chega em silêncio para depois fazer um grande estardalhaço e jogar tudo para o ar. Chega em silêncio escondendo quem é e se maquiando de impavidez. Chega em silêncio para, no fim, causar uma histérica comoção.
        A minha consciência é humana. Costuma cultivar algumas ideias equivocadas a respeito de si mesma. Tranca-se insistentemente num labirinto e grita para todos que consegue sair de lá sozinha. Grita para todos que está feliz com as suas escolhas até que, repentinamente, não consegue mais sair.

terça-feira, 7 de março de 2017

Quantas vidas cabem nesta?

           Quero viver infinitas vidas, mas estou presa a esta. Não raro me pego pensando na imensidão de coisas distintas que quero fazer ao mesmo tempo. São tantas essas coisas que fico indecisa sobre quais quero realizar nesta vida e quais postergar para outras - se houver.
          O meu desejo é viver mil vidas nesta aqui, por isso virei escritora. Há uma parte de mim que se vê de blazer preto e unhas feitas tomando um café com um autor e fechando negócios para a editora. Do mesmo modo, uma outra parte desta minha hesitante existência quer correr por um hospital dizendo que tem cirurgia marcada para as três e meia. Há, ainda, mais uma fatia que quer vestir uma camisa branca de manhã e entrar na sala de aula para ensinar literatura. Quantas vidas cabem nesta? Um pedaço de mim grita por um escritório e textos para revisar, a outra clama por um laboratório onde fazer pesquisas sobre a psique humana. Um dos fragmentos do meu ser quer dar aulas de redação para adolescentes no processo de escolha profissional, o outro se desespera por não saber, ele mesmo, escolher.
          Quantas vidas cabem nesta? A pergunta que me anuvia a mente é a mesma que me faz transparecer traços de puro contentamento. É em terças como esta que descubro por que a vida me encaminhou para cá. São onze e vinte e nove agora que escrevo esta sentença e há quase meia hora eu pensava que o dia estava semipleno. Eu falhava em não pontuá-lo com as palavras da abstração semanal. O meu desejo é ser um milhão de pessoas diferentes, ter um milhão de experiências diferentes e vivenciar o meu dia de um milhão de formas diferentes. Quero viver infinitas vidas, mas estou comprometida com esta. Por isso virei escritora.


“Escritores não são exatamente pessoas…
eles são um monte de pessoas tentando ser 
uma pessoa.”
- F. Scott Fitzgerald

terça-feira, 28 de fevereiro de 2017

Paisagem às sete horas

          Há quase uma semana, uma leitura sobre textos visuais me ensurdeceu por mais ou menos 2 minutos e não ouvi a voz no trem me avisando que chegávamos à Estação Pinheiros. À minha volta, pessoas pediam passagem e desembarcavam, deixando para trás um trem vazio. O papel em minhas mãos prendia minha atenção e não me dava permissão para desviar os olhos. Seguimos. Quando, finalmente, tive de virar a página e respirar um pouco mais, dei uma rápida olhada no vagão. Estranho, pensei. Hoje todos vão para o Eldorado. Quebrando minha estúpida ingenuidade, a voz se pronunciou novamente. Espere, ela disse que a próxima estação é a Cidade Universitária? Imediatamente comecei a calcular quantos minutos me atrasaria para a faculdade. Às 6h40, encontrava-me na plataforma oposta observando um céu bem claro, umas plantas bem verdes e outras pessoas bem intrigantes. Quem é essa gente que embarca na Cidade Universitária, que vem deste outro canto para ir para o lugar de onde vim? Senti-me uma intrusa admirando a vista dos outros, uma estranha aspirando o ar destinado aos que possuem licença para contemplar aquela porção do Rio Pinheiros, aquela porção de vegetação que veste a margem e aquela porção da plataforma tão estranha para os meus pés. 
        Coisa curiosa essa, a rotina. Acostumei-me aos reflexos mecânicos de andar pela cidade que há 19 anos chamo de minha, fazendo com que o ato de observar uma paisagem antes das 7 horas da manhã fosse um acontecimento extraordinário. Naquele dia, cheguei atrasada na faculdade e, para não ficar mais vinte minutos numa fila de elevador, subi 11 lances de escada. Eu teria ficado extremamente mal-humorada por ter começado o dia já com uma atividade aeróbica que poderia ter sido evitada com um pouquinho mais de atenção à voz no trem, mas não fiquei. Naquele dia, gastei 10 minutos da manhã cantarolando uma música qualquer diante de um céu bem claro, de umas plantas bem verdes e de outras pessoas bem intrigantes. 
         Naquele dia, uma leitura minuciosa me levou a experimentar novas vistas, novos ares. Uma distração me encaminhou para um sinal de mudanças, para um trecho de desconhecidas jornadas, para um vislumbre de futuras andanças. Naquele dia, uma breve surdez me salvou de viver mais um dia ininterruptamente comum. Uma breve surdez me obrigou a desacelerar, a desabilitar os reflexos involuntários, a explorar um exemplar de porvires. Há quase uma semana, tenho voluntariamente vivido.

Em homenagem aos textos visuais e ao pano de fundo de minhas epifanias,
deixo aqui uma pertinente amostra de ambos.




terça-feira, 21 de fevereiro de 2017

Sobre adiamentos e magnetismo

          Algum dia encontrarei palavras para iniciar um primeiro capítulo daquilo que ensaio há tanto tempo, mas não hoje. Hoje vou sentar e escrever sobre a mesma coisa de sempre, vou manchar um caderno com discursos diretos e impulsos secretos. Permito-me adiar por mais um tempo essa missão, permito-me provar desta euforia que é mergulhar uma vez mais no conhecido prazer de dissecar os ímpetos. Escrevo. Há uma corrente magnética que me põe do avesso e expõe meu âmago para o mundo, para ser entregue aos tapas, para ser entregue à vida agitada de uma cidade que acomoda lembranças atemporais. Escrevo uma vez mais sobre lembranças porque é disso que meu ser é feito, é disso que minha existência descende. Hoje vou sentar e escrever sobre como sonho com uma ideia que ainda nem mesmo chegou ao papel. Vou sentar e escrever sobre caminhos já percorridos, sobre recomeços e entranhas expostas. Algum dia encontrarei palavras para apresentar ao mundo minhas intenções viscerais, mas não hoje.
           Hoje eu vou apenas sentar e escrever.